segunda-feira, 2 de maio de 2016

1º Ano - Ensino Médio - Arcadas - Texto complementar

A mudança das distâncias geográficas e os processos migratórios

          Em Geografia, pode-se afirmar que a globalização diz respeito à construção de novos espaços e novas relações sociais desenvolvidas no mundo. Trata-se de uma nova configuração geográfica que se superpõe aos territórios nacionais, por vezes conflituosamente, outras em harmonia. Isso pode significar mudanças importantes nos próprios Estados nacionais com a presença, em seus territórios, de pontos de rede de corporações transnacionais e de redes técnicas, propiciando um aumento extraordinário da circulação de capital, de bens industrializados, de serviços e informações produzidos na escala mundial.
          Essa agilidade da circulação se dá porque os espaços globais são suportes ativos dos processos socioeconômicos que ocorrem na escala mundial. Esses negócios são alimenta­dos pelo que há de mais avançado em tecnologias de produção e de circulação. Assim, es­ses espaços da globalização se realizam como expressões geográficas da nova ordem mun­dial. Vamos desvendar a lógica desses espaços que, fundamentalmente, se estruturam em forma de redes; conhecer os ritmos de suas relações, cada vez mais aceleradas e; identificar os principais agentes que os alimentam, como as corporações transnacionais.
          Vamos começar com a formação populacional brasileira, mais especificamente, a contribuição dos processos migratórios estrangeiros. Que grupos vieram e para onde foram no território brasileiro? Quando? Qual a distância que esses imigrantes percorreram e as condições em que viajaram? Quanto tempo as viagens duraram? Vamos trabalhar com um caso expressivo, em razão da grande distância geográfica envolvida: a migração japonesa para o Brasil.
          O Brasil é o país que tem a maior comunidade japonesa no exterior (exterior porque estão fora do Japão). São 1.500.000 pessoas entre japoneses e seus descendentes. Isso é resultado de uma onda imigratória proporcionada pelo Trata­do de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, assinado em 05/11/1895. De 1908 a 1941, migraram para o Brasil 188.986 japone­ses. Esse fluxo foi interrompido pela Segunda Guerra Mundial e retomado nos anos 1950, quando vieram mais 53.555 imigrantes.
          Eram 55 dias de desgastante viagem de navio, para percorrer 18.550 km. Se um imigrante não gostasse do que encontrou, dificilmente poderia "bater em retirada" e retornar à sua terra natal. Retornar apenas para visitar o Japão, durante muito tempo, não foi algo possível para muitos. Era muito caro percorrer uma distância geográfica tão grande.
          Hoje, corresponde a 24 horas de vôo de avião. Em termos gerais, para as populações atuais desses dois países, essa mesma distância é ou­tra, tem outro significado em suas vidas.
O que aconteceu para mudar radicalmente o sentido desses 18.550 km? Uma aceleração no percorrer da distância geográfica. Uma aceleração dada pelo desenvolvimento e pelo acesso a novos meios tecnológicos que fizeram o espaço geográfico ser outra coisa; uma ace­leração que altera as relações entre essas duas sociedades (Brasil ↔ Japão).
A situação se inverteu: agora são 225.000 brasileiros que estão trabalhando no Japão. Estão impossibilitados de voltar se não gos­tarem? Podem visitar os parentes que ficaram no Brasil com regularidade? Esses parentes podem ir até eles? Eles são imigrantes, como os japoneses do início do século XX, que esta­vam trocando definitivamente de vida?
          A visão anterior sobre a migração estrangeira era marcada pela visão de atitude definitiva. A quebra da rigidez da migração, hoje, transformou em algo mais temporário, transitório, e isso se deu em função da no­vas condições de mobilidade do ser humano, um produto da aceleração dos fluxos.
Observe o mapa “As migrações, final do século XX” na página 5 do caderno do aluno. Vamos aproveitar o mapa para exercitar a linguagem cartográfica, chamando a atenção para algumas características dele:

a) a projeção cartográfica: os mapas são planos e a superfície terrestre é curva. Não há meios de se colocar no pla­no as dimensões - formas, extensão e distância – da superfície terrestre (por exemplo, dos blocos continentais). Por isso, todos os mapas possuem deformações. É importante saber quais são essas deformações. A transposição do espaço curvo para o plano se faz com as chama­das projeções cartográficas. Por exemplo: nesse mapa, a projeção cartográfica é a de Bertin. Com ela, o autor conseguiu manter a extensão e as formas das terras emersas (fora da água). É uma projeção boa para mostrar que, as relações humanas e seus bens (os fluxos)  estão muito intensas;

b) o mapa para ver: onde estão os maiores fluxos de imigrantes, mas isso num bater de olhos? Essa identificação é simples e óbvia. Não haverá necessidade de con­sultar a legenda. A comunicação desse mapa é feita por sua imagem em conjunto: é um mapa para ver. As setas indicam direções e esse símbolo é universal. A largura das se­tas comunica visualmente a maior ou me­nor quantidade do fluxo. Mas, além das setas, o mapa traz outra informação visual. Os países estão coloridos de cinza ou de tons de rosa (mais fracos e mais fortes). Essas tonalidades de cor significam menor ou maior presença de imigrantes na formação da população dos países. Elas criam uma ordem entre os países nesse aspecto. Por exemplo, na atual formação da população brasileira, há menos imigrantes, proporcionalmente, do que na formação populacional dos EUA;

c) a representação dinâmica e ordenada: por  intermédio de linhas (setas), esse tipo de representação mostra o movimento dos fluxos no espaço terrestre de imigrantes no final do século XX. Por mostrar esse movimento, ela é chamada de representação dinâmica, adequada para representar fluxos. E por intermédio do tom de cinza e dos tons de rosa cria-se uma ordem entre países que têm mais e que têm menos imigrantes na composição das suas respectivas populações, por isso, essa dimensão do mapa é chamada de representação ordenada;

d) a variável visual tamanho e variável visual valor: o mapa repre­senta dois fenômenos:

1) o fluxo migra­tório e sua dinâmica espacial. Porém, es­ses fluxos são de diferentes quantidades. Como expressar isso visualmente? Por meio da largura (tamanho) das setas. Essa é a variável visual tamanho, essencial na cartografia para representar a proporcio­nalidade entre as coisas. Por isso, quando se vê um mapa bem feito, essa proporcio­nalidade se imprime imediatamente em nossos olhos;

2) a participação na composição da população dos imigrantes segundo classes, fenômeno representado por meio da variável visual valor, onde tonalidades da cor do mais escuro para o mais claro expressam valor da cor. Essa relação é direta para nosso olhar.
            Interpretando o mapa, as localidades no planeta que estão recebendo os maiores fluxos migratórios no momento são EUA (bem a frente de todos), Europa Ocidental e Golfo Pérsico. Os principais fluxos, como os do México e da América Central para os EUA, possuem direção sul para norte. Há fluxos também do Sudeste Asiático para os EUA, da África para a Europa e assim por diante. Essa evidência indica fluxos do sul para o norte, que na verdade expressam fluxos dos países pobres para os países ricos. A maior mobilidade dada pelas novas condições espaciais gera outros fluxos inusitados, alguns temporários, como da Índia para Dubai (grande cidade na entrada do Golfo Pérsico). Algumas das áreas que atualmente recebem os maiores de imigrantes, como a América do Norte e a Europa, já têm uma participação expressiva de imigrantes no conjunto de sua população. Algumas outras, como a Austrália, que também estão nessa condição, já não recebem mais fluxos vigorosos de imigrantes. Embora tenhamos ouvido a história de que o Brasil é um país formado por imigrantes, considerando a segunda metade do século XX, deixamos de estar envolvidos de modo importante no conjunto das correntes migratórias internacionais. Isso se revela pela baixa participação dos imigrantes no conjunto da população e pelo volume atual dos fluxos que envolvem nosso território.
              Veja os grandes sistemas (movimentos) migratórios contemporâneos, que devem-se à pobreza, a fenô­menos de proximidade geográfica e a liga­ções históricas:
- Os sistemas sul para o norte, que drenam a maioria dos imigrantes (normalmente em busca de melhores condições econômicas);
- Refugiados do Norte da África para a França, em função das ações do Magreb (grupo ligado à rede terrorista islâmica liderada pelo saudita Osama bin Laden, na região de Cabília - cidade 70 km a leste de Argel, a capital da Argélia, na África);
- Antigo império das Índias para a Inglaterra;
- Turquia para Alemanha.
- Europa do Leste envia imigrantes, mas também os recebe;
- Índia - Paquistão para países petroleiros do Oriente Médio;
- América do Sul e Central para os EUA.
          O mapa de fluxos migratórios nos dá uma visão atual do volume e das direções das correntes migratórias internacionais, assim como a participação dos imigrantes na composição geral das populações dos países. Mas não é possível, por meio dele, concluir sobre a aceleração dos fluxos em relação aos movimentos migra­tórios ao longo do século XX. 
          Observe o gráfico “Evolução dos efeitos de migrantes, 1910-2000” na página 8 do caderno do aluno.  Ele nos mostra apenas uma evolução, no tempo, dos países recebendo imigrantes, mas não nos dá os fluxos, a dinâmica espacial direta e integralmente. O gráfico mostra que houve expressivo aumento do fluxo migratório dos anos 1960 para nossos dias em certas regiões do mundo: EUA, Europa Ocidental, etc. Essas representações visuais de qualidade formam imagens sobre os fluxos migratórios em escala planetária entre os Estados modernos: as direções geográficas desses fluxos; a mudança dessas direções; o volume quantitativo desses movimentos; e alteração contemporânea desses volumes, implicando numa aceleração dos fluxos e em formas mais acessíveis de administração das distâncias geográficas.

          Problematizacão dos fluxos migratórios internacionais: aceleração e fechamento de fronteiras
É muito comum atualmente falar de ace­leração da história. Os eventos humanos se precipitam mais velozmente e as transforma­ções históricas são mais rápidas. Desde que o ser humano se sedentarizou no neolítico, ele nunca se moveu tanto como agora. E esse aumento de mobilidade geográfica está asso­ciado à aceleração da história. O aumento da mobilidade geográfica de bens, de mercado­rias e pessoas é a globalização das relações humanas, cujo potencial transformador já demonstrou seu poder, embora muito ainda esteja por acontecer.
           Nesse novo cenário, um famoso historia­dor costuma afirmar: o documento mais im­portante nesse mundo globalizado não é a carteira de identidade e sim o passaporte. E isso nos dirige para a reflexão sobre os fluxos migratórios internacionais contemporâneos. Veja as características das migrações internacionais contemporâneas na página 10 do caderno do aluno.

Duas condições para que as imigrações se acelerem:

1. é mais fácil viajar, pois os meios são mais efi­cientes e os custos mais baratos e;

2. pode-se fazer experiências temporárias.
Porém, há restrições político-sociais ao processo mi­gratório. Por isso, o que menos circula no "mundo globalizado" são as pessoas. Mes­mo assim, as migrações cresceram bastante em comparação com o passado:

a) No início do século XXI, o fechamento das fronteiras fez aumentar o número de clandestinos, o que é difícil de estimar. Por exemplo: seriam uns sete milhões nos EUA;

b) Para os países de origem, as consequên­cias são por vezes negativas, como por exemplo, no caso da fuga de cérebros (pessoas com grande potencial – por exemplo, sua inteligência – e que acabam usando isso em outro lugar, não no seu país de origem);

c) As consequências são positivas para gru­pos que permanecem, em razão da remes­sa de recursos: em 2005 foram 225 bilhões de dólares, o que representa mais que a ajuda oficial direta para o desenvolvimen­to de alguns países. Por vezes, um imigrante sustenta, em média, dez pessoas.

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