quarta-feira, 19 de julho de 2017

Textos de Apoio - 8º Anos A, B, C, D, E e F - Escola Sylvio Maya - 3º Bimestre


Apostila Volume II - 3º Bimestre - Professora Daiane - Geografia - 8º Anos
Situação de Aprendizagem 1 -  A apropriação desigual dos recursos naturais


Como fazemos parte de uma civilização extremamente dependente da exploração de recursos minerais, vamos analisar inúmeras situações da vida cotidiana relacionadas ao uso e à apropriação destes recursos. Para isto, diferenciaremos os conceitos de recurso mineral, reserva mineral, minério, lavra e mina.
Em primeiro lugar, a expressão recurso mineral diz respeito aos materiais rochosos que são utilizados ou podem ser explorados para uso humano. Estes recursos podem ser divididos em diferentes categorias, de acordo com o grau de conhecimento técnico, interesse e viabilidade econômica. Assim, a reserva mineral é parte do recurso mineral identificada e reconhecida pelo seu valor econômico. Dependendo do grau de concentração de substâncias minerais numa determinada reserva, maior será sua viabilidade econômica. Minério é o material rochoso com alta concentração de substâncias que interessam economicamente à atividade extrativa. O local onde o minério é explorado denomina-se jazida mineral e a lavra é o conjunto de operações necessárias para retirada do minério da jazida.
Substâncias minerais, como ferro, manganês e chumbo, participam da composição química média da crosta terrestre e, portanto, numa jazida mineral, concentram-se em maior quantidade. O ferro, por exemplo, pode ser encontrado em diversos tipos de rocha na forma de hematita (Fe2O3). O que difere a jazida mineral de ferro de outros materiais rochosos é o seu grau de pureza. As jazidas viáveis economicamente são aquelas formadas praticamente por hematita concentrada. As jazidas minerais em exploração são denominadas de minas.
Como os recursos minerais resultam da concentração de substâncias nos materiais rochosos, seu tempo de formação é muito mais longo (milhões de anos) do que a velocidade de sua exploração econômica. Por causa disto, o que estará em discussão é o uso de recursos minerais não-renováveis, pois sua extração é altamente impactante e exige  a discussão da conservação do recurso e de sua exploração sustentável. Por exemplo, na sala de aula o piso pode ser de madeira ou cimento queimado, substituindo a cerâmica; as janelas, se fossem de madeira, poderiam ser substituídas por estruturas metálicas, e assim sucessivamente.

Resíduo sólido não é lixo

            Qual a diferença entre resíduo e lixo? De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, lixo é qualquer objeto sem valor ou utilidade ou detrito oriundo de trabalhos domésticos, industriais etc. que se joga fora; resíduo sólido é um termo que tem sido comumente utilizado para substituir a palavra lixo.
            Na expressão “resíduo sólido” está a idéia implícita de reutilização do material, ou seja, a valorização daquilo que aparentemente não serve para mais nada. Por exemplo: um dos resíduos acumulados diariamente no pátio e na cantina da escola é a lata de refrigerante consumida na escola.
            Observe o cartaz elaborado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade sobre o processo de transformação das chapas de alumínio em latas, na página 8 e 9 da sua apostila:
- 74 latas produzidas consomem 1 kg de alumínio;
- com uma chapa de alumínio de 1 m de comprimento por 1,72 m de largura podem ser produzidas 99 latinhas.
Agora observe o cartaz da reciclagem na página 10, que apresenta o processo de reutilização das latinhas:
- o alumínio é um minério oriundo da bauxita e para extraí-lo é necessário passar por um processo químico de eletrólise que utiliza grande quantidade de água;
- cada 1000 kg de alumínio reciclado representam 5000 kg de minério bruto (bauxita) poupados. A reciclagem do alumínio também é uma grande economia de energia, pois são gastos apenas 5% da energia necessária para se produzir o alumínio primário (o que não é produto de reciclagem).
            Além da reutilização de recursos minerais, uma questão ambiental importante é a do consumo abusivo estimulado pela propaganda. Precisamos encontrar alternativas de redução do consumo de refrigerantes na escola, analisando inclusive implicações relativas à saúde da população em torno dos hábitos alimentares. Podemos substituir os refrigerantes por sucos naturais ou água. Quanto aos recipientes, o uso de copos de plásticos reaproveitáveis fornecidos pela cantina ou mesmo copos de responsabilidade de cada usuário, dentre outras idéias.

A produção desigual dos recursos minerais

            Os recursos minerais, mesmo que renováveis, são finitos, uma vez que o crescimento do consumo ocorre num ritmo maior do que o processo natural de formação das jazidas minerais. Porém, do ponto de vista físico-químico, os recursos minerais são praticamente inesgotáveis, na medida em que tais substâncias fazem parte da composição da crosta terrestre. O problema decorre da relação entre consumo e viabilidade econômica e tecnológica. Nesse sentido, havendo tecnologia disponível a baixo custo para a extração de minérios com menor grau de concentração, as reservas existentes poderiam ser enormemente ampliadas.
Outro aspecto importante para o sucesso da extração do minério refere-se à sua localização. Uma jazida mineral pode apresentar alto grau de concentração de minério, mas ao encontrar-se distante dos grandes centros consumidores, aumenta consideravelmente o custo do transporte, podendo tornar-se economicamente inviável. Também devemos considerar como fatores limitantes: a escassez de água necessária para a obtenção de muitos produtos minerais e as condições limitadas de oferta de energia.
Como a distribuição das jazidas minerais pela superfície terrestre é irregular, uma primeira diferenciação entre os países pode ser feita em termos dos estoques e reservas de minerais existentes em função das condições geofísicas continentais. Nas bacias sedimentares são encontrados os recursos minerais energéticos, como o carvão, o gás e o petróleo. As principais estruturas rochosas sedimentares no caso brasileiro estão localizadas na Amazônia, Maranhão, Pantanal e Paraná. Dentre as estruturas rochosas cristalinas, onde se localizam as jazidas minerais de manganês, ferro, níquel, diamante, urânio, dentre outros, destacam-se os escudos das Guianas, o Atlântico, o do Brasil Central e o Uruguaio sul-riograndense. As principais ocorrências de bauxita, principal minério da produção de alumínio, também estão localizadas nas bacias sedimentares.
Qual seria a diferença das substâncias minerais incrustadas nas rochas cristalinas em relação àquelas existentes nas rochas sedimentares? O processo de formação destas rochas: as rochas cristalinas têm formações geológicas bem mais antigas do que as sedimentares, datando-as no arqueozóico e proterozóico, e, portanto, consideradas pré-cambrianas. Essas rochas foram submetidas à temperatura e pressão elevadas, o que propiciou a formação de cristais microscópicos, favorecendo, pela lentidão de sua formação, a concentração de certas substâncias minerais. No caso da rocha sedimentar, como o próprio nome diz, elas foram formadas pelo acúmulo de sedimentos em bacias de sedimentação que, do ponto de vista geológico, formaram-se a partir da era paleozóica, e, portanto, mais recentes que as cristalinas. O recurso mineral se formou por soterramento e confinamento de elementos debaixo de muitas camadas sedimentares, sendo de origem orgânica, como no caso do carvão mineral e do petróleo, ou de origem mecânica, como é o caso do ouro encontrado em bacias sedimentares.
O ouro é uma substância mineral que pode ser encontrada tanto nas rochas cristalinas quanto em bacias sedimentares. O que explicaria isto? Qual jazida se formou primeiro? O território brasileiro foi formado por estruturas superpostas de diferentes épocas. As rochas cristalinas são muito mais antigas e, portanto, o ouro existente nos escudos se formou primeiro, depois de um longo processo de resfriamento das rochas. Com o processo de erosão e deposição do material erodido nas depressões e fundos de vale, formaram-se as jazidas de ouro das bacias sedimentares.
Mas a irregularidade na distribuição dos recursos minerais é apenas um aspecto da diferencialidade espacial da produção mineral. Mais importante do que isto, é considerar a relação profundamente desigual entre os centros produtores e consumidores no mercado mundial de minérios.
O mapa “Mundo: exportação de ferro, produção de aço”, da página 5 do caderno do aluno, é um exemplo do mercado mundial do ferro. Identificamos na sua legenda que o Brasil, a Austrália, a China, a Índia e a Rússia são os principais produtores mundiais de ferro. Todos eles não utilizam a totalidade do ferro extraído, menos a China. O excedente da produção é exportado, principalmente da Austrália e do Brasil. A China, apesar de ser uma grande produtora de ferro, necessita importar o minério para suprir a quantidade que consome. Os quatro principais consumidores mundiais de ferro são China, Europa, Japão e Estados Unidos. A situação mais complicada de dependência do mercado mundial destes grandes consumidores de ferro é a do Japão (que não produz ferro) e da Europa (cuja produção é insuficiente). Os Estados Unidos é quase auto-suficiente, mas necessita complementar a +produção nacional com fornecedores externos. O mesmo ocorre com a China, embora em proporções maiores.

Situação de Aprendizagem 2 -  Desmatamento, poluição dos rios e da atmosfera

Até aqui, vocês puderam analisar a importância da produção e consumo de recursos minerais para o desenvolvimento econômico mundial. Da mesma forma, tiveram oportunidade de se conscientizar da necessidade de alternativas de exploração dos recursos minerais com a devida preocupação em preservar o meio ambiente.
A mineração, por mais criteriosa que seja, resulta na separação do minério concentrado e do rejeito, que é altamente poluente e danoso ao ambiente. A mineração provoca desmatamento. Além disso, algumas substâncias usadas na lavra são altamente tóxicas. É o caso do mercúrio utilizado na lavra do ouro, por exemplo, freqüentemente contamina os cursos d’água e o solo por longos períodos. A lavagem de minerais pesados, como a cassiterita, provoca o assoreamento de rios com enormes volumes de outras substâncias minerais.
Freqüentemente, a extração mineral também provoca impacto em escala global. A indústria extrativa necessita de muita energia. Se a usina geradora de energia for termoelétrica, por exemplo, a queima de combustível fóssil aumenta a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, causando impacto em escala global.
A BR-163 é uma das estradas mais polêmica da atualidade: conhecida como Rodovia Cuiabá-Santarém,  esta rodovia corta a Floresta Amazônica em 1500 km e necessita ser pavimentada para se transformar num corredor de exportação da soja cultivada no Mato Grosso, que poderia ser escoada pelo terminal portuário de Santarém. Por sua vez, os ambientalistas criticam o projeto porque já se sabe que as rodovias construídas na Amazônia favorecem o escoamento de madeira e gado, responsáveis pelo acelerado desmatamento da Floresta.

Água: um recurso finito

            Usualmente, a água é compreendida como um componente básico e abundante no planeta Terra, constantemente renovada por meio de um ciclo que mantém a troca permanente entre os reservatórios (oceanos, águas subterrâneas, rios, calotas glaciais) por meio da evaporação / transpiração, condensação / chuvas, infiltração / percolação (chuva que cai e escorre, ou seja, não exerce pressão sobre a superfície), dentre outros processos. Mas em função da poluição das águas e da distribuição profundamente desigual, tem crescido a idéia de que se trata de um recurso finito. Afinal, mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo não têm acesso à água potável. Enquanto um habitante dos Estados Unidos consome em média 400 l de água, um habitante do Quênia não passa de 5 l diários. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que o acesso à água é um direito de todo cidadão e estabelece 80 litros por habitante como o consumo mínimo diário para manter a saúde.
            O mapa “Mundo: disponibilidade de água por habitante, 1950, 1995 e 2025”, da página 18 do caderno do aluno, apresenta o agravamento da escassez de água potável no planeta. No caso brasileiro, é importante lembrar que 60% dos recursos hídricos disponíveis estão localizados em regiões distantes dos grandes centros urbanos, como São Paulo.

A interferência humana no efeito estufa

            A mídia tem dedicado grande atenção em relação ao aquecimento global. Em primeiro lugar, é preciso desmistificar e esclarecer alguns aspectos que envolvem a questão:
- gases existentes na atmosfera – como o vapor d’água, o gás carbônico (CO2), o metano (CH4) e o ozônio (O3) – evitam a dispersão da energia solar, aquecendo a Terra;
- sem os chamados gases-estufa, a Terra seria muito fria e não existiria vida no planeta;
- de fato, as atividades humanas desenvolvidas nos últimos 100 anos, promovidas pela industrialização, expansão do agronegócio e crescimento das cidades, têm contribuído para a concentração de gases-estufa na atmosfera.
            A tabela “Gases estufa”, da página 18 no caderno do aluno, detalha as fontes humanas que intensificam o efeito estufa, juntamente com a efetividade da absorção da energia solar por estes gases. Em termos de partículas por milhão, o dióxido de carbono é de longe o gás-estufa mais emitido pelas atividades humanas, uma vez que a matriz energética que moveu o processo de industrialização teve por base os combustíveis fósseis (estudado no 2º. bimestre). Os gases CFC têm um grande potencial de destruição das camadas de ozônio, que protegem a superfície terrestre dos raios ultravioleta e absorvem e conservam 10 mil vezes mais energia solar que o CO2.



Situação de Aprendizagem 3 - Do Clube de Roma ao desenvolvimento sustentável

A preocupação internacional com os temas ambientais ganhou uma nova dimensão no início da década de 1970, com a fundação de organizações ambientalistas de atuação global (o Greenpeace, por exemplo, nasceu em 1971) e com a realização da 1ª Conferência da ONU dedicada às questões ambientais.
A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972, foi fortemente influenciada pela teoria desenvolvida pelo Clube de Roma, um grupo formado no final da década de 1960 por cientistas, economistas e altos funcionários governamentais com a finalidade de interpretar o “sistema global”. De acordo com o pensamento deste grupo, sintetizado no relatório Os limites do crescimento, publicado em 1971, o planeta é um sistema finito de recursos naturais submetido às pressões do crescimento da população e da produção econômica. Portanto, para evitar o colapso iminente do “sistema global”, era preciso gerenciar globalmente o crescimento da população e da economia, de forma a alcançar um estado de equilíbrio dinâmico. Severas medidas de controle da natalidade, principalmente nos países pobres, e mudanças radicais nos modelos produtivos, com ênfase numa “economia de serviços”, eram as recomendações centrais desta escola de pensamento ecológico.
Duas décadas depois, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (ECO-92), realizada no Rio de Janeiro, ainda sentiu o impacto das teorias do Clube de Roma, principalmente sob a forma das abordagens e propostas apresentadas pelos países desenvolvidos. Mas, no intervalo entre elas, importantes transformações ocorreram, tanto nas sociedades como no debate ambiental. A ECO-92 foi, principalmente, palco da crítica às teorias do Clube de Roma.
Os críticos do Clube de Roma não enfatizam o crescimento demográfico, mas os padrões de produção e consumo e as bases tecnológicas do desenvolvimento econômico. Sob esse ponto de vista, as principais ameaças ambientais de dimensão global residem na reprodução dos modelos econômicos dos países desenvolvidos. Esses modelos não seriam sustentáveis, em virtude do elevado consumo de recursos naturais, da geração de gases-estufa e rejeitos poluentes dos mais variados tipos. As idéias fundamentais do Clube de Roma preconizavam (recomendam com louvor) o controle sobre o crescimento da população (principalmente nos países pobres) e das economias. O planeta tem um estoque limitado de recursos e com capacidade igualmente limitada de sustentar a vida humana.
A ECO-92 vinculou meio ambiente e desenvolvimento. Ela foi dominada pelo conceito de desenvolvimento sustentável, divulgado inicialmente por meio do relatórioNosso futuro comum, assinado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU e publicado, originalmente, em 1987. Por oposição ao mero crescimento econômico, o desenvolvimento sustentável só existe quando são cumpridos os requisitos ambientais para a continuidade, através do tempo, dos padrões de produção e consumo desejados.
O relatório Nosso futuro comum atribui aos modelos econômicos de produção e consumo, amplamente adotados nos países ricos, a principal fatia da responsabilidade pela crise global. Nesta nova perspectiva, a crise ambiental é global, ou seja, afeta o conjunto do planeta, mas as responsabilidades são diferenciadas, cabendo a maior parcela aos países que consomem e / ou devastam a maior parte dos recursos naturais. Além disso, nos termos do relatório, limitar o crescimento das economias e da população não é o caminho para atingir um modelo de desenvolvimento sustentável: é preciso garantir a satisfação das necessidades humanas, no presente e no futuro. Algumas idéias centrais do relatório:
- O desenvolvimento sustentável só ocorre quando as necessidades do presente são atendidas de maneira a não comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades;
- O desenvolvimento sustentável implica a satisfação universal das necessidades essenciais. Para que isso ocorra, é preciso que haja crescimento econômico nas regiões onde tais necessidades não estão sendo atendidas; nas regiões onde elas já são atendidas, pode haver crescimento econômico desde que sejam respeitados os princípios de sustentabilidade ambiental. Mas o crescimento econômico só é compatível com o desenvolvimento sustentável se, ao mesmo tempo, aumenta o potencial de produção de riquezas e assegura que essas riquezas sejam usufruídas pelo conjunto da sociedade.
As convenções e tratados, lançados durante a ECO-92, buscavam transformar este princípio em planos de ação capazes de redimensionar os padrões de produção e consumo, sobretudo nos países ricos. Entre elas, estão a Convenção sobre mudanças climáticas e a Convenção da diversidade biológica. Além disso, todos os participantes se comprometeram com a Agenda 21, um vasto programa de ações de curto, médio e longo prazo destinado à recuperação dos ambientes degradados e à promoção da sustentabilidade ambiental.

As escalas do desenvolvimento sustentável

            A sustentabilidade só pode ser alcançada se ela estiver na base de programas de ações globais, nacionais e locais. Na escala global envolve acordos multilaterais, por meio dos quais os governos assumem em conjunto metas e compromissos voltados a evitar a degradação do planeta e promover a satisfação das necessidades essenciais. A promoção do desenvolvimento sustentável exige ações, em escala global, porque os impactos ambientais não respeitam as fronteiras entre os países e nenhum país vai conseguir sozinho enfrentar a crise ambiental. Trata-se, portanto, de desenvolver o conceito de interdependência ecológica, que explica, por exemplo, que a poluição produzida em um país se torna um problema climático em outro. Por isso, são necessários os tratados e convenções internacionais sobre o ambiente.  Na escala nacional envolve políticas que regulam e estruturam o uso dos recursos naturais: as convenções e as metas globais devem ser incorporadas e adaptadas por meio de políticas que regulem e estruturem o uso dos recursos naturais em todos os países do mundo. Afinal, apesar dos acordos internacionais, os governos nacionais são soberanos na gestão de seu patrimônio ambiental. Já na escala local, envolve um conjunto de práticas ambientalmente sustentáveis, que podem e devem ser adotadas por todos: a sustentabilidade não implica apenas os governos, mas só será efetiva se incorporada ao modo de vida de todas as pessoas. Portanto, o consumo responsável, a adoção de práticas cotidianas que visam minimizar a degradação ambiental, tais como a coleta seletiva de lixo e a reciclagem, e a conscientização sobre as questões ambientais são essenciais para a promoção da sustentabilidade.
Por isso, os programas e as ações voltados para cada uma dessas escalas são importantes.

A Convenção sobre diversidade biológica e a Convenção sobre mudanças climáticas

            Considerando a escala global, os mais importantes tratados ambientais foram aprovados originalmente na ECO-92, realizada no Rio de Janeiro. São eles: a Convenção sobre diversidade biológica e a Convenção sobre mudanças climáticas.
Convenção sobre diversidade biológica, hoje aceita por mais de 160 países, é uma tentativa de frear a destruição acelerada das florestas pluviais tropicais que vem ocorrendo nas últimas décadas (veja o mapa “Florestas originais e florestas remanescentes”, da página 23 no caderno do aluno). Estima-se que estas florestas abriguem mais de 70% das espécies vegetais e animais conhecidas, o que justifica a preocupação internacional com o ritmo de desmatamento. A Convenção propõe metas internacionais de controle do desmatamento e da perda de espécies, mas reconhece o direito soberano dos Estados sobre os recursos biológicos existentes no território nacional. Entretanto, diversos movimentos ambientalistas argumentam que as florestas tropicais são patrimônio comum da humanidade, pois abrigam estoques biológicos valiosos e exercem influências climáticas planetárias. Por outro lado, para os países subdesenvolvidos nos quais se situa a maior parte destas florestas, a exploração de seus recursos pode ser essencial para a economia, gerando crescimento. A madeira das matas e os recursos minerais do subsolo, por exemplo, geram receitas de exportações. A construção de barragens e usinas, para aproveitamento das quedas d’água, é capaz de fornecer eletricidade para impulsionar as indústrias. As terras desmatadas podem dar origem a campos de cultivo, aumentando a produção de alimentos. Os países desenvolvidos querem que as florestas e o valioso patrimônio biológico que elas abrigam sejam preservados, mas muitas vezes, os países subdesenvolvidos não dispõem de capitais e tecnologias suficientes para usar, de modo não predatório, seus recursos florestais. Uma alternativa para a resolução deste impasse seria a transferência de tecnologias e de capitais dos países desenvolvidos para os países nos quais se localizam as florestas.
Na Convenção sobre mudanças climáticas, os países desenvolvidos comprometeram-se a congelar, até o ano 2000, as emissões de CO2, nos níveis registrados em 1990. Poucos anos após a adoção da Convenção, tornou-se claro que o compromisso de congelamento das emissões não seria cumprido pela maior parte dos países desenvolvidos, especialmente pelos Estados Unidos. Em 1997, o Protocolo de Kyoto foi anexado à Convenção, fixando para os países desenvolvidos uma meta de redução de 5% sobre os níveis de emissões de 1990, a ser atingida entre 2008 e 2012. Além disso, criou um sistema de comércio de créditos de emissões entre os países. Por enquanto, a meta de emissões é válida apenas para os países desenvolvidos, que passaram a ter duas opções: ou investem na redução das emissões ou compram de outros países os créditos de emissões (ou seja, o direito de lançar gases-estufa), que seriam comprados principalmente de países subdesenvolvidos. Para o início da vigência do Protocolo de Kyoto, foi estabelecido que seria necessária a ratificação (validação) de pelo menos 55 países, responsáveis por pelo menos 55% das emissões de CO2produzidas pelo conjunto dos países desenvolvidos. Estas condições só foram atingidas em 2004, com a adesão da Rússia, e o Protocolo finalmente entrou em vigor em 16 de fevereiro de 2005. Porém, os Estados Unidos, principal emissor de gases-estufa do mundo, recusou os termos do Protocolo. Pelo menos, nesta fase, há uma relação entre o princípio da responsabilidade diferenciada, preconizada pelo relatório Nosso futuro comum e os termos do Protocolo de Kyoto: apenas os países desenvolvidos devem cumprir as metas de redução de emissão dos gases de efeito estufa, pois eles são os maiores responsáveis pela crise ambiental que assola o planeta.

A Agenda 21 brasileira

            Além das Convenções, a ECO-92 também aprovou a Agenda 21, um programa de ações a ser adotado por todos os países a fim de recuperar os ambientes degradados e promover o desenvolvimento sustentável. No caso do Brasil, a Agenda 21 está estruturada em torno de cinco grandes dimensões e de vinte uma linhas estratégicas, apresentadas na tabela “Agenda 21 Brasil: dimensões e linhas estratégicas”, da página 26 no caderno do aluno. Estas dimensões são importantes para a promoção do desenvolvimento sustentável, pois o conceito de desenvolvimento sustentável é a expressão de estratégias econômicas destinadas a promover o crescimento da riqueza e a melhora das condições de vida através de modelos de crescimento capazes de evitar a degradação ambiental e a exaustão dos recursos naturais. Assim, o desenvolvimento sustentável admite o crescimento econômico, desde que ele cumpra os requisitos necessários à continuidade, através do tempo, dos padrões de produção e consumo desejados. A dimensão econômica, por exemplo, apresenta a idéia de que o combate à pobreza faz parte da promoção do desenvolvimento sustentável. Na linha político-institucional, as estratégias são voltadas à promoção da democratização dos processos decisórios. A busca do desenvolvimento sustentável não envolve apenas a dimensão ambiental, mais óbvia, mas diz respeito também às dimensões econômicas, sociais, políticas e educacionais. A própria abordagem destes temas em sala de aula faz parte da estratégia de promoção do desenvolvimento sustentável.

Situação de Aprendizagem 4 - Alterações climáticas e desenvolvimento: análise do Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008

            Vamos analisar as informações e conclusões extraídas do Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O combate às alterações climáticas que ocorrem em escala global é o tema principal deste relatório, que analisa a interferência humana sobre o efeito estufa e apresenta informações sobre os principais gases de efeito estufa, sobre o aumento das emissões e da concentração destes gases na atmosfera e sobre as atividades humanas responsáveis por este aumento. Vamos sistematizar seus conhecimentos a respeito das causas e das conseqüências deste fenômeno.
            De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008, que pode ser acessado na íntegra no site do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, devido ao aumento da concentração de gases de efeito estufa, as temperaturas médias globais podem aumentar em mais de 5°C ainda no século XXI, se nenhuma providência for tomada.Gases de efeito estufa e aquecimento global
            Algumas idéias centrais do relatório estão na página 28 do caderno do aluno. Vamos ler, observando as relações entre o modelo de produção e consumo vigente nos países ricos e a concentração de atividades emissoras de gases de efeito estufa nestes países. A pobreza e a falta de tecnologias tornam os países pobres mais vulneráveis às alterações climáticas.
            Ao longo de sua história, a Terra tem sofrido oscilações entre períodos mais quentes e períodos mais frios, resultantes da atuação de diferentes forças naturais, tais como a atividade vulcânica e as mudanças na órbita do planeta. Porém, as alterações climáticas que estão ocorrendo desde meados do século XIX são demasiadamente rápidas e intensas para serem atribuídas aos ciclos naturais: somente nos últimos cem anos, a temperatura média da Terra aumentou em 0,7°C.
            De acordo com a comunidade científica, existe uma probabilidade superior a 90% de que a maior parte deste aquecimento se deva aos gases de efeito estufa emitidos pelo homem. Os três gráficos “O aumento das emissões de CO2 está piorando os índices e fazendo subir as temperaturas”, da página 27 do caderno do aluno, reforçam essa tese, na medida em que sugerem uma relação entre o aumento da emissão e da concentração de CO2 na atmosfera e a elevação da temperatura global. Os registros climáticos revelam que 11 dos 12 anos mais quentes, desde 1850, ocorreram entre 1995 e 2007, reforçando a tese que vincula o aquecimento global à interferência humana – os picos de temperatura coincidem com os picos de concentração de CO2 na atmosfera.


  
A pegada de carbono

            Já estudamos a importância do aumento da concentração de gás carbônico no processo de aquecimento das temperaturas atmosféricas globais do planeta. Devido a este fato, analisar a variação global das emissões de CO2 é uma maneira eficiente de medir a responsabilidade de cada país na alteração climática que afeta a todos.
Vamos interpretar o mapa “Registro da variação global das emissões de CO2” da página 29 no caderno do aluno. Identificamos os cinco maiores países emissores mundiais de COem 2004: Estados Unidos, China, Federação Russa, Japão e Índia. A participação relativa destes países nas emissões globais, registradas em 2004, em relação ao total mundial é de 15,1 Gts de CO2 (soma da emissão de cada país), o que representa pouco mais de 52% do total das emissões mundiais de 2004. Entretanto, se considerarmos o tamanho das populações dos países e regiões, o panorama difere substancialmente. Dividindo-se a quantidade de emissões dos países pela sua população total, obtemos as emissões per capita. Este valor equivale a “pegada de carbono”, a responsabilidade efetiva de cada país ou região do globo nas emissões globais, ajustadas pelo tamanho de suas populações, ou seja, a quantidade per capita de CO2 emitida por cada um dos países ou regiões do globo.
O Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 apresenta alguns exemplos de desigualdades mundiais em termos de “pegadas de carbono”, que valem a pena serem analisados:
- o Reino Unido (60 milhões de habitantes) emite mais CO2 do que o Egito, a Nigéria, o Paquistão e o Vietnã em conjunto (população total de 472 milhões);
- o Texas, estado norte-americano com 23 milhões de habitantes, emite mais CO2 do que o conjunto dos países da África Subsaariana, que abriga 720 milhões de pessoas;
- os 19 milhões de pessoas que vivem no estado de Nova Iorque (Estados Unidos) têm uma “pegada de carbono” mais elevada que aquela deixada pelos 766 milhões de pessoas que vivem nos 50 países mais pobres do mundo.
Com apenas 15% da população mundial, os países ricos atingem 45% das emissões de CO2. As “pegadas de carbono” deixadas pelos países ricos tendem a ser mais profundas porque eles consomem a maior parte dos recursos energéticos, concentram a maior parte dos parques industriais e as maiores frotas de automóveis. Considerando as emissões per capita, ou seja, a “pegada de carbono”, a China apresenta valores que correspondem a cerca de 1/5 dos valores apresentados pelos Estados Unidos. Portanto, não é verdade que ambos os países possuam responsabilidade equivalente no que diz respeito às alterações climáticas. Estados Unidos, Canadá, China, Egito, Brasil, Vietnã, Índia, Nigéria e Bangladesh aumentaram suas emissões per capita entre 1990 e 2004 e apenas a Federação Russa, Reino Unido e a França reduziram suas “pegadas de carbono”.






Textos de Apoio - 9º Anos A e C - Escola Sylvio Maya - 3º Bimestre

Apostila Volume II - 3º Bimestre 
1. As populações e o espaço geográfico
Profa. Daiane – Geografia – 9º Ano

Quando nos referimos às coletividades humanas, usamos diversas palavras. Ao mencionar a palavra população (humana), o sentido imediato é quantitativo: população quer dizer volume de pessoas; em julho de 2009, população mundial significava 6,8 bilhões de pessoas.
O estudo quantitativo das populações é uma das atribuições da demografia, mas ao relacionar as populações ao espaço onde elas se distribuem, na verdade onde elas se concentram, entramos no horizonte da Geografia das Populações. Os grupos humanos não são apenas volumes estatísticos. É bom não esquecer a complexidade que cerca a vida humana no planeta e não há resposta fácil às perguntas quantitativas. Por exemplo: Quantos habitantes você acredita que há no mundo hoje? Você considera esta quantidade grande ou pequena? Por quê? Em sua opinião, qual deveria ser a população ideal do mundo? Nenhuma dessas respostas pode prescindir (recusar) de análises de situações que envolvam diversas variáveis; em especial, é preciso uma resposta que articule população e espaço geográfico.
Nas grandes cidades, os congestionamentos de automóveis, as filas nas quais pessoas aguardam um serviço, o número elevado de desempregados e a multiplicação do número de moradias precárias são problemas sociais dos quais já tomamos conhecimento e assim, percebemos a presença comum de um elemento quantitativo:
- congestionamento – volume elevado de automóveis;
- fila – uma espécie de congestionamento de pessoas;
- número elevado;
- multiplicação.
            E aqui é provável que surja um poderoso senso comum: esses problemas teriam como razão fundamental o fato de que há “muita gente no mundo” ou algumas alternativas parecidas como “muita gente na cidade”, “os pobres têm muitos filhos” etc. Levamos muito a sério o senso comum que os problemas se devem à existência de “muita gente no mundo”. E é compreensível que assim o seja, em especial no mundo contemporâneo. Afinal, as sociedades modernas se caracterizam pela existência de grandes grupos populacionais vivendo juntos, nas mais simples práticas cotidianas. É só observar os índices de freqüência nas praças esportivas de futebol, por exemplo: números como 80 mil pessoas ou mais são freqüentes.
Problematizando: há muita gente no mundo?
- Referências para medir, para quantificar: Qual a referência para afirmar que há muita gente, ou que havia pouca gente no mundo? Gente demais é uma medida que deve se relacionar a algo, o que não parece acontecer quando se enuncia esse senso comum. Logo, a afirmação “há gente demais no mundo” só terá força de fato se houver relações a se estabelecer.
- O combate à mortalidade: o Rei Henrique VIII, da Inglaterra, que viveu entre 1491 e 1547, teve seis filhos com Catarina de Aragão. Apenas uma menina sobreviveu à primeira infância. Isso com um rei todo-poderoso. O grande problema eram as doenças infectocontagiosas, que hoje se sabe combater. Logo, o controle das doenças é um fator de crescimento populacional. Resolvemos um problema que ameaçava a humanidade e essa resolução gerou outros problemas agora relacionados ao excesso de gente. Faz sentido?
- Desigualdade na distribuição populacional: a distribuição da população é desigual no interior dos blocos continentais. Há grandes vazios populacionais. Então, há um número elevado de pessoas nos locais de concentração, por exemplo, nas grandes cidades. Um bom exemplo é a cidade de Tóquio, a maior delas: nenhuma outra metrópole do mundo consegue tanta eficiência na circulação de sua população e nela há o maior volume de gente concentrada.
- População e desenvolvimento social: no Paquistão, o adensamento populacional (número de habitantes por km2) é de 227 hab./km2. Já na Holanda essa densidade é de 409 hab./km2. Logo, tendo em vista esse resultado a Holanda é mais povoada. Tem mais gente proporcionalmente ao tamanho do seu território. No entanto, qualquer que seja a comparação entre índices que medem qualidade de vida, a Holanda leva vantagem. Assim, o número menor de habitantes por km2 não parece aqui, ser a questão decisiva.
            A esses exemplos de problematização podem ser acrescentados outros. O que será necessário para que afirmações sobre a população mundial façam sentido? Afinal, podemos medir a população sob múltiplos aspectos, mas que conclusões podem ser tiradas dessas medidas?
A população mundial está concentrada em alguns pontos, e não dispersa pelo planeta. E isso pode ser detectado já no início da era cristã e muitos desses principais centros de povoamento são os mesmos de antigamente. Se há gente demais no mundo e isso causaria problemas, não parece haver uma contradição enorme e de fundo com um dado da Geografia das populações: o modo de o ser humano viver é se concentrando, aglomerando-se?
O ser humano busca viver em meio a muita gente. Tanto é assim, que se constroem centros de grande concentração – eliminando a distância geográfica – que nada mais são do que as cidades, as grandes cidades especialmente. Agora se encontrou um parâmetro, uma referência, para avançar na discussão sobre a população ideal do mundo?
Seguramente encontrou-se uma lógica na forma de produção e organização dos espaços humanos: os seres humanos vivem juntos, concentram-se preferencialmente. Espalhar-se, criar distâncias entre seus membros, não foi e não é a lógica dominante de vida entre as populações humanas. Pelo menos, desde o período Neolítico da história humana. Nós formamos centros de densidade demográfica que são parâmetros para discutir medidas de população: a densidade demográfica relaciona volume populacional e extensão territorial. Agora estamos em um dos caminhos para dar sentido aos números populacionais. Esse caminho relaciona população e espaço geográfico. Há muito que discutir a respeito dessa relação, em especial sobre a escolha do ser humano em viver aglomerado. Porém, essa não é a única referência para discutir a dimensão de um país e outros números populacionais.


2. As referências geográficas e econômicas da demografia

A demografia não vale por si só. Saber quais são os volumes populacionais e suas dinâmicas (o ritmo de seu crescimento, índices de natalidade e mortalidade, estrutura de idades – envelhecimento e rejuvenescimento) são informações sem dúvida muito importantes. Mas, sozinhas, elas pouco significam.
Para lhes dar mais sentido é preciso saber as condições geográficas dos territórios onde se encontram os volumes populacionais. Por exemplo: se a população estiver em sua maioria nas cidades ou se estiver no campo, as diferenças na vida e nas condições sociais serão enormes. É preciso também conhecer as condições econômicas: é comum se encontrar casos de grandes populações mais bem protegidas, pois têm acesso à moradia, à alimentação, assim como é igualmente comum encontrar populações pequenas sofrendo enormes carências.
Nesse tema, a prioridade será trabalhar as referências concretas que dão sentido aos números populacionais: as condições dos espaços geográficos e da economia. Vale ressaltar que outras dimensões da vida humana (cultura, regime social, política) também contribuem para dar sentido aos números populacionais. E é sempre oportuno lembrar-se disso.

As relações complexas da população com o espaço geográfico
Por si só, a evolução do crescimento da população mundial tem vários aspectos que chamam muito atenção. Observe o gráfico “População mundial” da página 14 no caderno do aluno; ele mostra que há 2.400 anos a população mundial era de 250 milhões de habitantes e que após 1.900 anos (início do século XVI) essa população havia apenas dobrado (500 milhões), e que em apenas 505 anos a população mundial multiplicou-se 13 vezes, chegando ao número atual de 6.500 bilhões de habitantes. Está visível, a curva do gráfico não engana: quanto mais nos afastamos do passado mais a velocidade de crescimento populacional se acelera.
Algumas informações complementares que dão a dimensão do que tem sido o crescimento populacional no mundo:
- Somente no período entre 1980 e 1990 o número de pessoas no planeta aumentou aproximadamente 923 milhões. Esse número é bem próximo da população total do mundo inteiro na época de Thomas Robert Malthus (1766-1834), um economista sempre lembrado quando se discutem números da população. Na época, ele não via como a humanidade conseguiria se sustentar caso a população continuasse a crescer no ritmo de sua época, que era bem mais lento do que hoje;
- Nota-se facilmente que em nossa era os seres humanos se comunicam mais. Isso se deve, sem dúvida, ao desenvolvimento dos meios de comunicação. Mas além desse fato, os homens estão mais próximos uns dos outros pela singela razão de que há mais homens na superfície terrestre. Se imaginarmos os homens igualmente distribuídos sobre as “terras emersas habitáveis”, a distância entre duas pessoas há dois milênios era de 1 km. Hoje em dia, a distância seria menos de 150 metros. Uma distância ao alcance da voz (GRATALOUP, 2007);
- Leia mais um item na página 15 do caderno do aluno.
            Que relações os números da população e seu ritmo de crescimento têm com o espaço geográfico? Até aqui foram observados e discutidos dois aspectos dessa relação:
- O ser humano produz de forma dominante espaços concentrados (muita gente, muitos objetos e equipamentos, muitas edificações) e a relação população e espaço deve levar isso em conta;
- Uma maneira razoável de se captar isso é a relação entre o volume de população e a extensão territorial. E essa relação é denominada densidade demográfica.
            Mas há outras relações estabelecidas entre população e espaço geográfico que devem ser consideradas para se pensar de maneira qualificada na questão das quantidades adequadas de população. Duas dessas relações básicas e imediatas, dentre muitas possibilidades, são:
- o quanto a natureza suporta: vêm do meio físico (que denominamos natureza), em especial do modo como ela se manifesta na superfície terrestre, as condições para o ser humano construir seus espaços e prover sua vida. Os recursos naturais, tal como diversos grupos sociais os usam, são inesgotáveis? Qual a “carga” de seres humanos e de seus engenhos (e modos de vida), que a natureza pode suportar, sem que surjam problemas? E mesmo que a natureza ainda possa suportar muito de nossa ação sobre ela, até que ponto se deve fazer isso, até onde é ético modificá-la? Sobre esse aspecto, muitas outras interrogações podem e devem ser adicionadas;
- quais os espaços que são habitáveis: um geógrafo do começo do século XX, Max Sorre, atualizou uma noção dos gregos antigos sobre quais são os espaços que podem ser habitados. Esses constituem, na designação dos gregos, o ecúmeno. Anecúmeno seria exatamente o contrário: áreas que não podem ser habitadas. Diante da tendência humana de se concentrar e também da extensão das terras emersas, há ainda, nesse sentido, espaço a ser habitado. Mas, existem anecúmenos? Podemos habitar os desertos quentes, como o núcleo do Saara? Ou a Antártida?
            Agora dois casos específicos de relação população e espaço, como exemplo, para concluirmos. Leia os casos na página 18 do caderno do aluno. Comparando os dois casos é certo que há um distanciamento crescente a favor da Ásia tropical na produtividade agrícola. E aí um dado notável: é a Ásia, o continente mais densamente povoado, que alimenta melhor sua população enquanto a África, com frágeis densidades, experimenta dificuldades crescentes para alimentar sua população (BRUNET & DOLLFUS, 1990). Podemos afirmar que na Ásia tropical não há gente demais, embora a densidade demográfica da região seja alta, mas a população vive em melhores condições de vida em termos de alimentação. Nas chamadas sociedades desenvolvidas há mais gente nas cidades, mas ao mesmo tempo essas sociedades possuem grande produção agrícola porque no campo de alguns países desenvolvidos estão em vigência elementos do que se convencionou chamar de revolução verde (referência ao impressionante aumento da produção agrícola na segunda metade do século XX, marcado pelo uso intensivo de tecnologias – irrigação, máquinas e implementos agrícolas, fertilizantes e agrotóxicos etc. – e pela monocultura, produção intensiva de um único tipo de lavoura, redução do custo de manejo e que obtém maior produtividade com menos mão de obra).

As relações complexas da população com a economia

            A economia é uma atividade humana complexa. Em nossos dias, essa complexidade aumentou tanto que ao cidadão comum tornou-se praticamente impossível acompanhá-la. Economia é o conjunto de ações que o ser humano realiza para resolver sua vida material (biológica, inclusive). Por exemplo, conseguir e produzir alimentos para comer e sobreviver é o princípio absoluto das práticas econômicas.  Depois dela é que as outras podem vir.
            Por essa razão, a questão primeira, a mais básica, que envolve a relação “tamanho das populações e economia” é a produção de alimentos. Se o tamanho de uma população, num dado território, for maior do que a capacidade que essa população tem de produzir alimentos, o que vai acontecer com ela? Malthus afirmou, há dois séculos (1798), que a produção de alimentos vinha perdendo terreno e prognosticou desastres terríveis resultantes do consequente desequilíbrio “na proporção entre o aumento natural da população e os alimentos”. Será que o medo dele era justificado? Numa corrida entre o crescimento da população e a produção de alimentos, quem está ficando para trás?
            Não há indícios que justifiquem (na escala do mundo) os temores de Malthus. Aliás, ele estava redondamente enganado. Contudo, isso não significa que em certas situações do passado, e mesmo em algumas do presente, a falta de capacidade de produção de alimentos não tenha pesado no ritmo de crescimento populacional. É só verificar quanto tempo a população se manteve no mesmo tamanho (veja o gráfico novamente da página 14). Os números que aparecem na tabela “Índices de produção de alimentos per capita segundo regiões”, da página 19 do caderno do aluno, são índices estatísticos. Ela trata da produção de alimentos por pessoa (per capita). É necessário destacar a coluna correspondente ao período 1979-1981. Ela foi transformada em base do índice e, por isso, todos os seus números são 100,0. Nas outras colunas aparecem as variações para cima e para baixo em relação a esse índice de 100,0. Quer dizer:
- variação para cima: produção de alimentos por pessoa aumentou, ou era mais alta;
- variação para baixo: produção de alimentos diminuiu, ou era mais baixa.
            Vamos analisar o caso particular da África: há crescimento na produção por pessoa em todos os continentes e países citados, menos na África, inclusive nos continentes mais povoados atualmente. Para finalizar: a produção e o consumo de alimentos por pessoa são hoje consideravelmente maiores que no tempo de Malthus, o que ocorreu junto com uma grande elevação nos padrões gerais da vida. Não existe na realidade nenhuma crise significativa na produção mundial de alimentos. A taxa de expansão dessa produção evidentemente pode variar, mas a tendência de crescimento é bem clara. Há gente demais no mundo?

Rizicultura inundada: plantação de arroz em terreno encharcado de água;
Técnicas hidráulicas e irrigação: sistemas e técnicas para acesso a água na produção agrícola.

3. Populações: perfil interno, desigualdades, migrações internacionais

            Lembramos anteriormente que a palavra população nos remete para o quantitativo: volume de pessoas. A dinâmica do crescimento populacional e o modo como ela se distribui podem ser captados pelas técnicas estatísticas. Elas funcionam como ponto de partida para entender a vida humana no planeta, e não como ponto de chegada. Para além das medidas, há muita complexidade a ser compreendida. Para se ter dimensão do quanto há para ser compreendido, a própria estatística pode ampliar seu olhar e mergulhar em aspectos internos dos perfis da população. Outras medidas da população vinculadas à organização geográfica aprofundam nosso entendimento da Geografia das populações. Em especial, porque por esse meio podem ser identificados padrões populacionais que vão contribuir para se entender uma série de questões relevantes e difíceis na vida das sociedades contemporâneas.
Nesse tema vamos sugerir e indicar alguns caminhos possíveis para confrontar o perfil interno das populações e identificar certos padrões que estruturam as desigualdades existentes entre as populações dos países, das regiões e entre a população interna de um único país. Para abordar o tema das populações no mundo atual, um bom recurso é expor ditos muito repetidos, tratados como verdadeiros. Um exemplo comum é a afirmação de que há gente demais no mundo, o que já se discutiu levando-se em conta as variáveis presentes na relação da população com o espaço e a economia (e outras dimensões do social). Aproveitando a oportunidade desse comentário, temos mais um senso comum: o Brasil é um país jovem, por isso um país do futuro. A primeira afirmação se refere à nossa curta história após a chegada dos portugueses (500 anos). Essa nossa juventude justificaria as dificuldades socioeconômicas do Brasil. Mas, isso é bastante duvidoso visto que nos EUA, que possuem a mesma curta história, há uma realidade socioeconômica bastante distinta da brasileira. Quanto a segunda afirmação, que é a que serve para explorar a questão demográfica, o senso comum se refere ao Brasil como país jovem utilizando como referência o fato de a nossa população ter um número elevado de crianças e jovens. E isso seria algo que nos dá uma vantagem, que nos indica um futuro melhor. Pensar nesta questão, coloca-nos no centro das discussões mais importantes sobre a dinâmica das populações e sobre as questões do desenvolvimento.

As desigualdades entre as populações do mundo

            Será que o perfil interno das populações dos países mais ricos se assemelha ao perfil das populações dos países mais pobres? Será que há padrões, quer dizer: países desenvolvidos teriam uma estrutura populacional própria e os menos desenvolvidos também teriam seu padrão? Observem os mapas ”Mundo: população com menos de 15 anos “ e “População com mais de 60 anos” na página 23 do caderno do aluno: eles apresentam o mesmo fenômeno, a idade das populações (estrutura etária). A diferença é que um representa a população infantil (até 15 anos) e o outro a população idosa (acima dos 60 anos). Em ambos os mapas os dados formam classes, e são números relativos (em percentual), não absolutos. O mapa é a de distribuição da população infantil no mundo e mostra visualmente as áreas de maior população contrastando com as de menor, numa seqüência ordenada. Para representar visualmente essa ordem – que vai dos que têm mais aos que têm menos – foi utilizada a seqüência de cores quentes (vermelho, laranja) para cores frias (verde). Visualmente, essa ordem não faz sentido, pois a única maneira de entender o que o mapa representa é consultando a legenda. No mapa de população idosa foram utilizadas as tonalidades de uma única cor. Onde a tonalidade é mais escura (maios intensidade de pigmentos), maior é o percentual de idosos e onde a tonalidade é mais clara, o contrário. Sem dúvida o mapa de população idosa consegue uma comunicação mais eficiente. A ordem dos dados é representada por uma ordem visual das tonalidades de uma única cor, enquanto a ordem de cores apresentada no primeiro mapa (população infantil) não é uma ordem visual natural, e sim uma escolha arbitrária, baseada na lógica das cores frias e quentes. Por exemplo: para qualquer observador, o vermelho, o laranja, o amarelo e o verde representam visualmente cores diferentes, sem dar sensação de mais ou menos intensas. Logo, não criam, juntas, uma ordem. No caso do mapa de idosos, para perceber a lógica geográfica do fenômeno representado, nem é preciso a consulta da legenda, pois o observador perceberá onde o fenômeno é mais intenso e onde o fenômeno é menos intenso. Um bom critério para resolver sobre a eficiência dos dois mapas é perguntar “qual mapa consegue responder visualmente, de forma mais rápida onde se concentram os maiores índices da população na faixa de idade representada?”
            Analisando esses mapas, vocês terminam tendo uma visão correlacionada entre a distribuição da população de idosos e a população infantil e vai notar uma coincidência invertida que pode ser expressa nos enunciados: países com maiorpopulação idosa têm menor população infantil e; países com menor população idosa têm maior população infantil. Se listarmos os países e as áreas extremas das duas situações: mais idosos e mais população infantil. O que acontece nas situações intermediárias, por exemplo, no caso do Brasil? Se o Brasil está numa posição intermediária em relação ao volume de população infantil, isso significa que ele também está numa posição intermediária à população idosa? Existem, de grosso modo, três grandes padrões no perfil populacional, em termos de idade (veja tabela na página 24 do caderno do aluno). Por exemplo, existe um padrão na Europa ocidental que está presente em vários países vizinhos e que o mesmo se dá, em alguma medida, na América do Sul. Mas os países não estão condenados a permanecer com esses padrões populacionais: os países do padrão 3 já tiveram uma situação semelhante aos de padrão 1. Aliás, na altura do século XVIII todas as populações estavam próximas ao padrão 1 (muita população infantil e baixa população idosa). O regime demográfico era marcado por fortes natalidade e mortalidade. Atualmente os países do padrão 3 são aqueles onde nascem poucas pessoas e a vida se estende bastante. Pode-se dizer que o padrão 1ao padrão 3 houve uma transição demográfica, que de certa maneira vem atingindo as populações em geral. O Brasil recentemente encontrava-se no padrão 1, mas se pode dizer que ele se encontra atualmente no padrão 2. Essa transição demográfica está em constante andamento, mas não mudam naturalmente, tanto que a situação do padrão 1 se manteve por grande parte da história humana. Mudanças na organização social têm relação direta com a transição demográfica: o progresso econômico e as ações sanitárias fizeram baixar a mortalidade e propiciaram o enorme crescimento da população mundial. Outras mudanças nas estruturas sociais (o que inclui o espaço geográfico) e no comportamento dos indivíduos serão responsáveis pela queda da natalidade que num futuro não tão distante irá estabilizar o crescimento populacional.
            Dessa identificação dos padrões populacionais e de sua dinâmica (transição demográfica) é importante destacar a seguinte afirmação: os padrões populacionais não são independentes das condições sociais (econômicas, geográficas, culturais, políticas etc.). Essa constatação é um portal para se ingressar na complexidade da vida humana no planeta. Demonstrações muito conhecidas e objetivas confirmam a relação padrão populacional e condições sociais. Vamos confrontar os padrões populacionais (1, 2 e 3) com as condições apresentadas nos mapas “Esperança de vida” e “Desigualdade de renda” da página 26 do caderno do aluno que tratam da expectativa de vida no mundo e índice de desigualdade econômica respectivamente. Os países de padrão 1 estão bem em termos de expectativa de vida e de distribuição da riqueza? E o contrário, é verdadeiro? Falta pensar nas conseqüências sociais dos padrões populacionais. Até aqui se investiu em mostrar que as condições sociais interferem nos padrões populacionais. E como os padrões populacionais interferem nas condições sociais? Tendo bem sedimentado o que é o padrão 1 (uma grande parcela de população infantil em relação ao total), precisamos pensar a respeito das tarefas sociais que devem ser executadas para se conseguir boas condições sociais num “país jovem”). O mundo do padrão 1 é também aquele de pior expectativa de vida, de muitas desigualdades sociais, países e regiões pobres. Certas situações semelhantes são encontradas nos países de Padrão 2, como no caso do Brasil. Vamos ler um texto na página 27 do caderno do aluno. O envelhecimento da população também é, obviamente, uma conquista social, pois está associado ao aumento da expectativa de vida. Mas coloca uma questão importante num país como o Brasil: não sabemos conviver com esse novo fenômeno e é preciso aprender. São vários os aspectos que devem ser notados:
- o Estado brasileiro está pouco preparado, e a discussão a respeito não tem sido feita de forma realista e criativa para arcar com as obrigações financeiras das aposentadorias;
- novas estruturas precisam ser providenciadas no campo da saúde e da assistência ao idoso sem família. Elas não são baratas, mas são indispensáveis;
- as cidades devem contemplar em suas políticas urbanas uma série de serviços e meios para dar condições dignas de vida aos idosos. O espaço geográfico das cidades deve ser preparado para a plena locomoção do idoso e todos os cidadãos ganharão com isso. Eles não podem ficar confinados em suas casas e abrigos. Não podem ficar apartados da vida social e, na medida do possível, devem ter vida privada e individual;
- é preciso combater os preconceitos sociais que vitimam os idosos, que tratam a velhice como doença, como um estado de alienação e incapacidade.
            Mas nosso aprendizado já começou. Em 1º. de outubro de 2003, entrou em vigor a Lei no. 10.741, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso. Somente a lei não basta, mas ajuda muito. Vamos ler o trecho inicial dessa lei na página 28 do caderno do aluno.

O impasse das migrações internacionais

            Entender o povoamento de uma região implica conhecer algo muito importante na dinâmica atual: os movimentos migratórios. O ser humano não nasce, vive e morre no mesmo lugar, necessariamente. Se isso não era verdade para quase todo mundo no passado, hoje a situação se inverteu. O ser humano vem se construindo como um ser móvel (tem aumentado sua mobilidade) e, em função dessa nova condição e outras mudanças sociais, sua vida se desenvolve com outras possibilidades geográficas: ele pode nascer num lugar e viver em vários lugares diferentes: o ser humano pode migrar. Os movimentos migratórios estão na origem e formação, por exemplo, dos países das Américas. O século XX foi um período dos maiores movimentos migratórios, com esses movimentos atingindo escala mundial, o que a imigração japonesa para o Brasil exemplifica.
Atualmente, a mobilidade humana atingiu potenciais inimagináveis: pode-se ir de um extremo a outro da Terra com extrema velocidade, o que abrevia o tempo necessário para percorrer as distâncias (24 horas de vôo). E de fato, mercadorias e informações circulam em grande quantidade e cada vez mais livremente no planeta. Mas será que o mesmo pode ser dito dos seres humanos, das migrações? Vamos ler duas afirmações sobre na página 30 do caderno do aluno. A contradição fica maior se levarmos em conta que atualmente, pelo menos tecnicamente, é mais fácil imigrar, a mobilidade humana é maior, as distâncias não são mais intransponíveis etc.
Vamos analisar alguns sistemas migratórios contemporâneos na página 30 do caderno do aluno:
- o primeiro item do quadro diz respeito a uma referência geral, diz respeito à escala mundial;
- é fácil perceber e concluir que as migrações mencionadas têm uma direção social: dos países pobres para os países ricos;
- no caso dos outros grupos, o fluxo é regional (de escala regional);
- no fluxo América do Sul e Central para os EUA, há sérios problemas, pois boa parte dessa imigração é ilegal, os imigrantes correm grandes riscos para atravessar as fronteiras dos EUA e, se bem-sucedidos, continuam correndo riscos na sua futura vida.

4. Populações e cultura: mundo árabe e mundo islâmico

Os volumes populacionais contêm internamente uma complexidade que as estatísticas nem sempre apreendem. As características sociais dos grupos populacionais, assim como as condições econômicas, as formas de organizar e operar a partir do espaço geográfico e as práticas culturais, interferem na lógica de funcionamento das populações, inclusive no seu crescimento e distribuição geográfica. Nesta etapa vamos destacar um dos aspectos relevantes no funcionamento das populações: suas práticas culturais. O caso que servirá de ilustração refere-se ao mundo árabe e islâmico. As práticas culturais constituem-se como elementos que produzem diversidade entre as populações e diversidade nos comportamentos.
Por outro lado, olhar a dinâmica das práticas culturais, suas influências, o modo como se expandem, nos auxilia também a compreender a própria dinâmica de povoamento das várias regiões do planeta e a dinâmica das relações contemporâneas entre os povos.
Há uma série de referências geográfico-culturais para a divisão regional do globo: Mundo ocidental, Oriente Médio, Extremo Oriente, Mundo cristão, Mundo árabe e Mundo islâmico (o Islã). A intenção é delimitar mundos à parte, mundos próprios, mundos diferentes. Em geral, sobre os “outros mundos” criam-se muitas fantasias. O que vocês entendem da definição “outros mundos”? Por exemplo: Qual o tamanho do mundo cristão e como ele se construiu? Essa prática religiosa – elemento central de nossa cultura – surge no Oriente Médio e sua configuração geográfica atual é muito mais larga e expandida. Refletir sobre nossa própria realidade é um bom estímulo para refletir sobre a realidade do outro, até para perceber que o outro não é tão outro assim.

A lógica expansionista do islamismo

            Observe alguns dados relativos às práticas religiosas da população mundial, comuns quando se discutem questões populacionais e alguns aspectos da lógica geográfica: há no mundo atual cerca de 2 bilhões de adeptos do cristianismo, o segmento religioso com o maior número de seguidores. Em segundo lugar, vamos encontrar o islamismo (muçulmanos ou maometanos), com 1,3 bilhões de adeptos. Depois aparecem: o hinduísmo (900 milhões), a religião tradicional chinesa (394 milhões) e o Budismo (394 milhões). Essas são as principais, mas existem muitas outras.
            Que populações praticam essas principais religiões? De que países elas são? As duas maiores religiões são multinacionais (cristianismo e islamismo). São praticadas em vários países; as outras religiões são mais circunscritas a um único país (hinduísmo na Índia; tradicional chinesa na China).
            É costume referir-ser ao mundo cristão e ao mundo islâmico (o Islã). Mundo é mais que país. Quer dizer: nessa realidade e nessa forma de se expressar, está embutida a idéia que o cristianismo e o islamismo são religiões expansionistas. Afinal de contas, China e Índia possuem as maiores populações e seria de se esperar que as religiões que essas populações praticam fossem as maiores do mundo. Mas não são. Perdem para aquelas religiões que são praticadas em vários países ao mesmo tempo. Seria interessante agora ver qual a distribuição geográfica do islamismo. Será que ele está bem distribuído no planeta? Os países com maiores populações islâmicas são Indonésia, Índia, Paquistão, Bangladesh, Egito, Turquia, Irã e Nigéria. Uma pequena lista dos países que possuem as maiores populações muçulmanas (página 34 do caderno do aluno), com dados divulgados pela CIA (norte-americana), pode começar a responder esta questão. Observe esta lista tendo como apoio de um atlas, para situar geograficamente os países citados.
            Numa comparação com o número total de islâmicos no mundo (1,3 bilhões) nota-se que nesses oito países encontram-se aproximadamente 68% dos muçulmanos do mundo. Islâmicos e muçulmanos são designações a respeito de uma prática religiosa associada aos árabes porque a origem do islamismo ocorreu entre os povos árabes. Seu profeta foi o árabe Maomé. E foram os povos árabes que difundiram e expandiram as áreas onde se pratica o islamismo. O território habitado pelos povos árabes é o que se chama de península arábica. Esses povos, em função de sua história ao longo do tempo, construíram vários países (Arábia Saudita, Omã, Emirados Árabes Unidos, Kwait, Egito, Síria, Territórios Palestinos etc.). Houve também uma expansão dos próprios árabes para o norte da África, abrangendo o Iêmen do Sul e do Norte, Líbia, Marrocos, Tunísia. Enfim, todos são árabes, não apenas os da Arábia Saudita. Na lista dos oito países que têm mais população islâmica, apenas o Egito é um país árabe mais populoso. Os países árabes terminam não sendo muito populosos, entre outras razões, pela condição de seus territórios dominados por um grande deserto. Os árabes, na verdade, representam apenas 1/5 dos muçulmanos do mundo. Mas, o islamismo, que é criação árabe (e que em si já possui muitos elementos da cultura árabe propriamente dita), é o principal fenômeno de identidade cultural de uma vasta região que inclui o Paquistão, o Afeganistão, Bangladesh, Irã, que constituem uma espécie de Oriente Médio expandido. Isso, mais imediatamente, mas como os dados mostram, essa influência chegou ao oeste da África e ao leste asiático (Filipinas e Indonésia).
            Nos territórios árabes não se encontra a maioria da população islâmica, apenas 1/5. Será então que a civilização árabe ficou menos importante no mundo islâmico? A resposta é não, muito pelo contrário. Nem tudo que é ligado aos grupos populacionais humanos depende da quantidade. O centro do Islã é ainda a civilização árabe. O território árabe e a cidade de Meca (página 36 do caderno do aluno) são as conexões geográficas para onde ainda todos vão e de onde tudo partiu. Leia o texto “Como se expandiu o islamismo” na página 38 do caderno do aluno.
No mundo católico cristão também não é assim? O Brasil é o país católico mais populoso, mas não é aqui o centro principal dessa prática religiosa. O centro principal está na Itália (Vaticano).

O que é islamismo?